O fim do jornalismo
O silêncio faz barulho

Pode, Arnaldo? Nem a Luiza, que está no Canadá, aprovou ao abrir “O Globo” de hoje e não encontrar NENHUM debate sobre o caso rumoroso do BBB. Xexeo, mais fã de TV do que cronista, ignorou vergonhosamente o assunto. Pior: em vez de uma reportagem que poderia discutir vastos campos temáticos do reality show em todo o mundo, o jornal empurrou a história para um canto exíguo das páginas policiais.

A ação estratégica em cadeia das Organizações Globo diante do suposto estupro de uma BBBquete é um desastre.

Obviamente não se esperava da paumolescência segundo-cadernista uma reportagem de aplaudir, mas pelo menos uma intenção, uma forma de não fingir que o Brasil inteiro fala disso, menos os produtos da cadeia global.

Uma postura tão omissa como essa funcionaria bem do meio dos anos 90 para trás, mas não agora. O povo ativo das redes sociais está aí assistindo a tudo, mas, na ótica da Globo, é como se não estivesse ali. Nesse momento, milhões de pessoas não estão sendo ouvidas pela cúpula da rede. E, quanto maior for este silêncio, maior será o barulho nos corredores virtuais.

A questão aqui não é meramente policial. A questão é de debate sobre o futuro do programa, que deixa de ser espontâneo à medida que os BBBs estão proibidos de comentar o assunto. Como pode um programa que prima por tintas democráticas virar o leme para o autoritarismo diante de algo que, ninguém ouviu falar, todo mundo viu?

Não se trata aqui de julgamento de nada. O que aconteceu por debaixo do edredon é assunto para a Justiça. O que se trata aqui é o que está por trás desse pavor da Globo pelo desenrolar dos acontecimentos.

O que pode acontecer? A perda da licença do programa? Uma ação milionária de Daniel contra a Globo por danos morais e materiais, o corte da cabeça do comando do núcleo?

Se a Globo deixar tentaremos ver os próximos capítulos.

Entra qualquer um

Houve um tempo – e, sinceramente, essa coisa de “no meu tempo é que era legal” não é a minha, mas isso é fato registrado – em que conseguir uma vaga num jornal grande era uma maratona intelectual. Você era testado, retestado, avaliado, reavaliado, criticado, ensinado e, o melhor disso: tomava esporros trágicos e ficava feliz. A partir do fim dos anos 90, com a popularização da internet e milhares de novas vagas abertas, o jornalismo virou a casa da mãe do BBB: passou a valer tudo.

Os mesmos barrados por não ter condições técnicas de virar um jornalista eram recebidos nas hostes dos portais como reis. Erros de português, textos medíocres, formatações impensáveis, pautas absurdas e Google tonificaram os músculos já murchos da nossa profissão.

O jornalismo, em decadência vertiginosa nos anos 2000, virou chacota nas redes sociais, sempre atrasado, sem furo, sem textos brilhantes. Estamos falando de um jornalismo 2.0 em que quem dá o fato antes deu um “furo”, sem necessariamente a informação ser precisa. “Ah, depois damos correção”.

Pois foi com essa turma que foram nutridos os grandes jornais, hoje dirigidos por gente mais nova, mais interessada em abrigar os seus e acochambrar amigos e simpatizantes – e principalmente não ser ameaçado.

O velho sonho de pisar uma redação está sendo pisoteado. Uma geração muito preparada, conectada, que olha para o futuro com mais agilidade, não olha prum salão com centenas de pessoas olhando para o Google com o tesão de antes.

Bill Gates e Steve Jobs abriram uma caixa de novas oportunidades de comunicação – e Mark Zuckerberg e Jack Dorsey tacaram um tijolo de novidade na cabeça da molecada. O papel se transformou num teletrim. Se eu posso produzir, me comunicar, criar meu próprio centro de comunicação e ainda consigo disseminar entre milhões de pessoas, por que vou perder meu tempo escrevendo prum papel com uma medida igual todo dia? Por que vou sair para uma pauta e fazer 450 fotos se só vão aproveitar uma?

O jornalista aproveitado no topo da decadência é o sujeito que agora filma reportagens, faz imagens de bastidores, faz “produção”. É o cara mais explorado, o que ganha pior e que se mantém naquele corredor sabe-se lá por quê.

Estamos próximos de uma hecatombe intelectual. Você vê os veteranos tentando se conectar com as pessoas nas redes sociais. E também vê os jovens tentando pular etapas, desejando virar veterano rapidamente, mesmo não sabendo a diferença entre um subtítulo e uma legenda.

Enquanto milhares de moleques almejam virar jornalistas, num mercado com vagas a salários aviltantes, no corredor de mídias sociais chovem soldos interessantes.

Em nenhum dos dois lados, porém, você encontra jornalistas brilhantes. Esses estão em muita falta.

O último fora de série que vi em ação com essa mão foi justamente nos anos 90. Já morreu.

Assim como morre, dia a dia, toda a minha claudicante esperança num futuro no qual o jornalismo tenha futuro.

PS: Uma curiosidade me toma: como será a cobertura de “O Globo” amanhã sobre o suposto caso de estupro no BBB 12? Se seguir a linha de Pedro Bial, que fraturou a realidade de forma exposta por dois dias seguidos, estaremos diante de um caso extremo de pique-esconde dos fatos. A diferença, senhores, é que agora tem muito mais gente a opinar por aí que os velhos senhores do papel. Pensem nisso antes de avaliar o tom e o tamanho dessa edição.

Bial, está todo mundo espiando você.

Conteúdo não roda na gráfica

No dia em que o termo “jornalismo” foi trocado por “conteúdo”, o jornalismo deu adeus à sua existência. O maior resistente ao seu fim é o próprio jornalista. Ao admitir que o jornalismo como conhecíamos acabou e que hoje o conteúdo é o novo jornalismo, centenas de executivos perdem seus empregos. São eles, curiosamente, que defendem que o papel dura mais dez anos.

Não dura. O jornal de papel foi infiltrado por gente de “conteúdo”, não jornalistas, não apuradores, não checadores, não insistentes. Estamos diante de uma dicotomia. O papel tem gente do “conteúdo” que não sabe fazer jornalismo e o “conteúdo”, este digital, renomeado pela força do novo mercado, ignora o jornalismo. Quem formatar profissionais jornalistas-conteudistas terá, enfim, um produto.

No papel, as chances são mínimas.

Nos jornais, hoje, a cúpula pensa apenas em estender o máximo possível a duração de seus cargos, tentando convencer os acionistas de que não se deve jogar tanto dinheiro no digital, e que a manchete vale mais do que 2 milhões de retweets.

Uma farsa montada para se permanecer relevante. Há jornalistas que se mantêm no mesmo lugar por décadas, fingindo que liga para o jornal do patrão, enquanto, horas depois, está numa mesa de bar reclamando da vida, tomando cachaça ruim e pensando como seria bom se aposentar e viver em Visconde de Mauá.

Estamos na pior. O estagiário de jornalismo tem duas opções: ou cai dentro de uma nova empresa com uma boa ideia na cabeça (original, né, filho?) e muito investimento ($) ou vai ser explorado numa grande empresa.

Emprego depois de formado? Tem, mas com salário baixo.

Pensando assim, onde está o futuro do jornalismo?

No conteúdo.

E ele não roda na gráfica.

55 mil

Este deve ser o site de número 55.000 que me inscrevi. Decerto estará perdido em breve pela blogosfera à espera de um post.

De minha parte desejo boa sorte. Até 2013, quando deve ir pro buraco, talvez antes mesmo do Orkut.